'Em nome do pai e da mãe"

Uma coisa é certa: os pais são cúmplices do crime dos filhos

Não é preciso entrar em detalhes: todos estão por dentro da tragédia que aconteceu nos Estados Unidos, quando dois meninos de 11 e 13 anos, dispararam contra os colegas na saída do colégio, matando quatro alunas e uma professora. Dispensam-se os detalhes. A discussão resume-se agora numa unica pergunta: por que?
Múltiplas respostas. Porque muitas famílias guardam armas em casa, acessíveis à curiosidade infantil. Porque os meios de comunicação glamourizam a violência e banalizam a morte. Porque os pais trabalham demais e não tem tempo de acompanhar o crescimento das crianças.Todas as alternativas estão corretas, mas uma delas é infinitamente mais relevante do que as outras. Todo pai e mãe é cúmplice do filho.
Tema delicado , esse. Uma mãe que tenha um filho bandido tem culpa? Um filho ladrão, um filho corrupto, tem culpa? Seria injusto responsabilizar os pais por um destino que não é moldado apenas pela educação, mas também pela competitividade, pelo desemprego, pela depressão, pelas más influências, pela impunidade e por outras armadilhas sociais. Também somos frutos do meio. Mas nada é mais decisivo do que o exemplo de casa. Aquele mundinho entre quatro paredes em que passamos a infância, em que os membros da família formam uma espécie de sociedade anônima, tem força, poder de persuasão e carga emocional suficientes para determinar o futuro de qualquer cristão. É ali, nos primeiros anos de vida, que se determinará o quanto podemos ser corrompidos pelo que vem de fora e o quanto de integridade sobreviverá.  E apesar de isso ter a concordância teórica de todos, na prática, tem gente deixando as crianças se virarem sozinhas, com a desculpa de estimular sua independência, quando na verdade estão
 empurrando-as para uma prisão.
Não necessariamente com grades e algemas, mas sim numa prisão cultural. E perpétua.
Tem gente que faz olho branco para filhos que afanam dinheiro, que matam aulas, que são agressivos. Acham  que isso passa, é coisa de guri. Tem gente que acha educativo criticar o filho na frente dos outros, debochar de seus erros,, usá-lo como bobo da corte para distrair os convidados. Tem pais que nunca festejaram um aniversário, não comparecem às reuniões da escola, não estimulam a leitura. Tem pais que baixam o nível, contam vantagens, valorizam trapaças e picaretagens e assim vão formando sua imagem de super-heróis. Todos eles tem uma tremenda culpa no cartório, sim senhor, e a ausência de casa não serve como atenuante. Maternidade e paternidade se exerce de onde se estiver, 24 horas por dia.
O parto é o lado mais fácil dessa história, mas muitas mães dão por encerrada, ali mesmo, no hospital, a sua missão.
Por egoísmo, preguiça ou ignorância, enchem a boca para dizer "meu filho não é propriedade minha, é filho do mundo". Poético, mas inconsequente. Eximir-se da responsabilidade de  criá-los com amor e decência deveria ser crime previsto pelo Código Penal.
Antes de jogá-los no mundo ao qual pertencem, devemos armá-los não com pistolas automáticas, mas com um mínimo de conhecimento sobre as regras básicas de convivência e alguma noção sobre valores. Dá trabalho? Dá, mas dá certo.
Martha Medeiros (este artigo foi publicado em Zero Hora, 01.04.1998)


Comentários

Lena disse…
Oi, Anatolio
Com certeza, a Martha Medeiros está coberta de razão, por isso assino embaixo. Ótima a postagem num momento conturbado pelo qual passa o mundo.Um grande abraço, meu amigo!
Muito obrigado pelo comentário.
abraços anatolio
mpereverzieff disse…
Achei muito interessante e verdadeiro. Pena que a maioria dos pais e mães não tenham consciência de seus papéis para educação e o futuro de seus filhos, deixando-os nas mãos de terceiros. Um grande abraço.

Postagens mais visitadas deste blog

MANIFESTO PELA PAZ MUNDIAL - UNESCO

A MAÇONARIA E O PATRONO SÃO JOÃO DA ESCÓCIA

Coronilha