Carta

Saudações:

... as ideias são o único terreno de apoio a uma obra literária. E você não tem tempo para elas. Nem para ler nada afora o que esteja em moda.
Para conselhos veja Zenão, Cleanto, Epicuro. Este diz uma coisa que você deveria assimilar, caríssimo sobrinho: "A ira desgovernada gera loucura".
Corra até aquecer-se, tome banhos frios, coma pão, coma figos secos, beba água da fonte.
Lembre-se que a embriaguez não passa de uma forma de loucura propositadamente assumida.
Não curta a crueldade dos poderosos. Não provoque a fúria dos mais poderoso de todos. Nada disso. Faça-se ao largo, desviando-se como o timoneiro hábil evita o mar picado e rodeia as borrascas.
A verdade é que os escritores nunca devem chegar perto demais do poder. Anseiam para que a realidade atinja o nível da arte, por isso dão absurdos conselhos.
É melhor sonhar e escrever sobre o passado, como está fazendo na "Farsália".
Epicuro nos aconselhava meditar sobre a morte, com isto convidava-nos a meditar sobre a liberdade. Sabe como Catão morreu; sem dúvida saberá você como morreu Cipião, genro de Pompeu? Um vento forte impeliu-lhe o navio para a costa da África. Vendo que ia cair nas mãos dos inimigos apunhalou-se.
Quando perguntaram onde se achava o comandante; respondeu: "Tudo bem com o comandante". E era assim, pois conquistara mais do que um inimigo, vencera a morte, escapara à tirania, ERA UM HOMEM LIVRE.
"Adeus".

Carta escrita por Sêneca a Lucano, seu sobrinho.
"A Conspiração", Bloch Editores.



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