SÊNECA - Sobre a Brevidade da Vida


Porque reclamamos da natureza?

"Ela se mostrou benevolente: a vida, se souberes viver, é longa. Mas a insaciável ganância domina um; outro desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos; outro encharca-se de vinho, outro fica entorpecido pela inércia; um está sempre preocupado com a opinião alheia, outro por um desejo irreprimido de comerciar, é levado a explorar terras e mares na esperança de obter lucro.
O desejo de guerrear tortura alguns, que não se mostram apreensivos em relação aos perigos alheios ou ansiosos aos seus próprios; há aqueles que se sujeitam a ingrata adulação dos superiores.

Também há os que se ocupam invejando o destino alheio e desprezando o seu próprio. A grande maioria , sem nenhum objetivo, lança-se a novos propósitos levianamente, encontrando apenas desgosto. Alguns, sem terem dado rumo a suas vidas, são flagrados pelo destino esgotados e sonolentos, de tal maneira que não duvido ser verdade o que disse, como se fosse um oráculo, o maior dos poetas: Virgílio: "Pequena é a parte da vida que vivemos". Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.

Os vícios sufocam os homens e andam a sua volta, não lhes permitindo levantar nem erguer os olhos para distinguir a verdade. Permanecem imersos, presos às paixões, não favorecendo um voltar-se para si próprio.

Mesmo encontrando alguma paz, eles continuam sendo levados por suas ambições, não achando tranquilidade, tal como o fundo do mar que depois da tempestade ainda continua agitado. Imaginas que falo daqueles cujos vicios estão explícitos?
Observa os que a sorte abençoou: eles se sentem sufocados pelos seus bens. As riquezas são pesadas para muitos! A preocupação com a eloquência e a necessidade de mostrar talento tirou o sangue de muitos! Outros enfraqueceram devido a uma vida de libertinagens! Muitos possuem um grande número de clientes, mas nenhuma liberdade! Por fim observa a todos, desde os mais simples aos mais poderosos. Este advoga, aquele assiste, um é acusado, outro defende, aquele outro julga; ninguém pede nada para si, uns aos outros se consomem. Indaga sobre aqueles cujos nomes são conhecidos de todos e verás por que o são: este cuida daquele, que cuida de outro; ninguém cuida de si mesmo. Além disso, é extremamente irracional a indignação de alguns, pois se queixa do desprezo de seus superiores, mas eles próprios não os procuram, embora desejassem.
Quem ousará reclamar da soberba de outro, quando ele mesmo não dispõe de um momento para si? Aquele, apesar do aspecto insolente, te olhou com respeito sem saber quem eras, ouviu tuas palavras e te recebeu junto a si. Tu não levaste em consideração nem a ti mesmo. Assim não há motivo para que cobre teus favores a quem quer que seja, já que, quando o fizeste, foi por querer estar com o outro e não contigo mesmo". Sêneca...

"Não encontramos nenhum que queira dividir sua riqueza mas a sua vida é distribuída entre muitos"...

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