Como o Arquiteto Deve Projetar a Nossa Casa

Sendo simples nunca deve ser feita apenas de pedras, tijolos, cimento e cal. Tem dois jeitos de se construir uma casa. Uma casa pros outros, uma casa pra gente. Eu quero construir uma casa pra gente. Casa moldura, casa ninho, casa paisagem, casa feita com pedaços do que se ama, de infância, amigos, cantigas, saudades, presenças, esperas, casa resumo.
Sabe, o universo isolado, a ilha, a proteção. Onde tudo é plantado com recado e endereço. A janela, a porta, o chão, o espaço, o teto, o vão, o degrau e o lugar para a viola, para olhar a árvore, o céu, para meditação, para reinvenção  do mundo...a casa deve ser o lugar para brigar com a consciência, para se viver mil anos, para não morrer nunca.
Tenho três mil livros e todos os dramas dos tempos, é preciso um canto para eles, tenho mil obras para serem feitas, mil viagens por fazer, e tenho alguns amigos e é preciso um lugar para todos.
Mas do tamanho dos olhos nunca maior, a casa deve inspirar todas as coisas que a gente aprendeu a colecionar. Por isso não quero uma casa de pedra, cal e cimento,  quero uma casa de espaços mágicos, uma casa de pequenos valores humanos.
Quero construir um lar para todas as coisas que construí: pai, mãe, mulher amada, filhos, netos, pássaros no pátio, poemas nas páginas, espantos, sol, chuva, tempestades e sorrisos, lembranças e deslembranças e flores, a casa tem de ser ingênua, igual da serra, com seu céu, seu encanto, com palmeiras e sabiás...O terreno tem setecentos metros, mas quero por nele todos os encantos, tantos verdes, e coloridos horizontes tantos quanto possam caber. Quanto aos cômodos tem de ser todos precisos no tamanho e no jeito de ser.
A frente romântica e feminina; a garagem camuflada; a entrada que não judie do resto, que tenha rima, em linha, que seja um convite, bonita de se olhar, fácil de se abrir, o portão e a porta podem ringir ou cantar,  mas que seja ameno...; a sala de estar imensa, a lareira não deverá ser muito grande para não agredir demais, não queimar demais e nem de menos; todas as portas devem dar para uma varanda, uma passarela ou um mirante, para ver o jardim o paraíso, a frente, sentir o perfume, um olhinho d'água se der para por no meio das folhagens, um monjolo, umas peças antigas para compor a nostalgia do ambiente; a sala de jantar do tamanho que for preciso, onde poderemos tomar o vinho; a cozinha deverá ser um laboratório, já que teremos um fogão a lenha também; o quarto despretensioso, as edículas em volta não deverão ser nem cárcere nem convés de galera.
Sabem: quero construir uma casa para gente.
Que nunca possa parecer grã-fina nem pretensiosa.
Mas que tenha tudo isso que foi dito.
E muita simplicidade em todos os ângulos, imaginação, alma e um sotaque só dela, de ser casa e de ser lar.
Amor.
É isso, amor em tudo. Até na campainha, até no muro da divisa, no olhar a mariposa se debatendo na vidraça ensombrada.
E o importante: que custe apenas o que se pode pagar.

adaptado de um texto de autoria de Zaé Júnior,escritor, jornalista, etc.  com vossa permissão...


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